quem sofre não mostra. esconde. não tatua. não faz piercings para mostrar a revolta. corta-se para se certificar que está vivo e esconde os mesmos com a vergonha de ter duvidado porque são os vivos que recriminam. não escreve para tirar partido disso. escreve para exteriorizar aquilo que não consegue dizer. não gosta de viver assim. não procura viver assim. quer, à força ou de qualquer outra maneira, uma fuga ao vazio desesperante que sente dentro do peito. e sente todos os dias ao acordar o terminar da relação com o dia anterior. "tem de haver mais do que isto", a frase que dita o fim de todas.
lembrei-me disto enquanto fazia quilómetros entre a cidade onde vivo e trabalho, para onde me mudei com a desculpa conveniente de para lá ir trabalhar, e aquela em que nasci. foi mais uma semana que acabou. esta particularmente dolorosa, mas sem razão aparente. começo a ceder aos poucos. a mascara que ponho todos os dias começa a revelar fissuras, sejam elas do tempo ou do uso. tem-me perguntado mais vezes se estou bem. se está tudo bem. e eu, eu não, a máscara, responde com um sorriso café, que sim, vai-se andando com a cabeça entre as orelhas. mal as pessoas sabem que não vai nada bem. tudo. o tudo resume-se sempre pelo que não temos. é neste ponto em que entras tu. ou entravas. a dor destes últimos meses, e provavelmente desta ultima semana, tem sido essa. o esforço que tem de ser feito para não de te deixar voltar a entrar. para manter fora da minha existência a única pessoa que queria dentro dela todos os dias. mas não posso ser uma marioneta nos dedos do teu ton de voz sedutor. começo a perder a esperança de que alguma coisa sobreviva. é que neste momento todo eu sou mágoa. mágoa por teres tirado proveito do que sentia por ti. mágoa por não me teres dado a distancia quando ta pedi. mágoa por me teres dado as memórias da tua companhia para este coração se agarrar com tudo o que tem. e depois por me teres abandonado à fome dela. preparas a desculpa e eu dou-te a oportunidade. diz-me que mudaste. que já não és a pessoa por quem eu me apaixonei. mas por favor, não mostres essa pessoa, que no fundo está refém em ti perante a minha presença, aos teus amigos. não comigo ao lado. deves ter razão. a pessoa que és para mim realmente mudou. já não vem ter ou falar comigo "porque sim", mas só e quando precisar de alguma coisa. e eu vou fechando os canais de comunicação um a um. porque te tornaste nociva. porque ninguém gosta de sofrer. porque me lembro do que foste para mim e do que perdi por tanto te querer. a particularidade desta semana deve estar relacionada com isto. com o papel que escolheste para mim na tua vida, e que eu, que sempre fui "ou tudo ou nada", renego por me recusar a aceitar esmolas. prefiro não ter, não saber, esquecer, a viver o resto da minha vida a lembrar-me de que te perdi ao rever a pessoa linda que te tornaste, mas só para os outros. esta decisão, nunca a vais ler ou ouvir. vamos vivê-la os dois. e se a estou a tomar é porque te posso garantir que já não tenho mais esperança de salvar seja o que for. estamos ambos saturados. e eu quero deixar de sofrer. e é isso que eu escondo. é por isso que "está tudo bem". para não me perguntarem o que se passa. para eu não me desmanchar em lágrimas em plena via pública porque encontrei uma pessoa linda e o medo de a perder escondeu-me dela dando cabo de tudo. porque já nem eu sou o mesmo com tanta cicatriz marcada. fujo para o meu isolamento voluntário. fujo das pessoas. fujo desta situação. sonho contigo e acordo para me preocupar contigo. depois revolto-me porque não pode ser. está mal. tem de ser comigo. tu não estás nem nunca mais vais estar. acabou. morreste. tornaste-te um fantasma do passado que eu vou chorando de tempos a tempos sem saber durante quanto tempo.
quando é que me seca esta mágoa? quando é que se cala este sofrimento? já não está relacionado com a expectativa de sobrevivermos a isto, mas porque não é saudável, não é justo para nenhum de nós, e porque "tem de haver mais do que isto".
mas nós, temo que nem nada nem nunca mais.
é a conclusão que mais me faz carpir.
a condenação do amor em que tu nunca quiseste acreditar, quanto mais aceitar.
se me perguntarem, sorrio e digo que está tudo bem.
acreditem na máscara.
Saturday, 29 January 2011
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