Saturday, 6 August 2011

tenho um cansado de não ser dançado que precisa que as tuas mãos o segurem, que os teus lábios o beijem, que o teu corpo o embale, para poder dormir sossegado. o pensamento é fútil. e a insónia tenta assim, pelo meio destas palavras tornar-se menos inútil. tu entras e sais num ritmo só teu, até porque cada pessoa tem o seu próprio ritmo. até aqui nem nada de novo quão tão velho o facto de não me abandonares o tal fútil. e se a solidão do quarto onde observo o tempo a contar os grãos de pó, a uma velocidade que me passa despercebida de tão rápida, me entristece, o resultado é uma ida até ao king para ver a última sessão do que for possível. dou por mim a pensar porque raio trouxe eu, num acto reflexivo e auto-explicativo, um casaco. devo estar a ficar melhor porque ao passar pela livraria, reparo que na secção de poesia oitenta por cento dos livros são sobre amor e os seus efeitos secundários. e há sempre um raio de um livro que se chama "momentos", tipo galeria de fotografias. tudo aquilo me deixa tristemente ébrio perante a gritante falta de racionalidade. mas será que não existem poetas ou escritores que se dediquem a assuntos mais sólidos. como se eu fosse exemplo. nem escritor, quanto mais. assisto ao filme na mesma sala onde, juntos, vimos um filme pela ultima vez. pelo menos o filme é bom. "Angèle e Tony". recomendo. saio do kino (kino porque gosto mais da palavra do que cinema) com a cabeça a mil à hora e a correr para casa como se a minha vida dependesse disso. a pensar, sempre a pensar, agora nas bolachas que deixei na secretária e no pessoal a morrer à fome na Somália. nas ideias todas que quero apontar seja num papel ou num teclado. nas redes sociais. as reais e não as que se vêm numa página da internet. as que aproximam e afastam pessoas. que nos definem conforme as escolhas que fazemos, aliás sempre foram as nossas escolhas a definirem-nos, elas condicionam mais ou menos conforme os casos. mas será que é possível a uma pessoal de um extracto social apaixonar-se por outra pessoa de um outro extracto social completamente oposto? o mais distante possível? o que é que alguma vez as vai aproximar? não terão como unico caminho o da luxuria? o unico ponto de contacto? a colher de chá de hormonas que decoram o nosso corpo? acho que é essa a quantidade de hormonas que temos, uma colher de chá. mas não me lembro e não me apetece ir ver à net. afinal é chá a menos e colher a mais. não estou a pensar no que poderá resultar dali, mas no inicio. a fagulha que ateia a chama. enfim, nós que até tínhamos algumas coisas em comum, acabamos como que em extremos opostos. sempre esta a mesma merda de conclusão e a mesma noite mal dormida. como se não existissem mais pessoas no mundo. existem, mas se me pedisses para te dizer do que é que gostava mais nesse mundo e eu ia acabar a responder-te que era de ti, ou porque sei que te incomoda o meu sentimento, a tentar desviar-te o pensamento para qualquer outro assunto. não sei se isto se chama anular a nossa própria existência. se é, anulo-a ao ponto de achar que não tenho salvação se estiver à espera que um dia acordes e decidas trocar as saudades que dizes ter minhas com as que eu ando para aqui à um ano a guardar. todas tuas. e não tenho salvação se vou estar à espera que a laurinda, uma das pessoas mais equilibradas mentalmente que conheci na tua ausência, de um extracto social completamente oposto, se vá lembrar deste gajo piçudo que no dia dos anos dela, em vez de lhe dizer que a idade não a fazia mais feia, andava era de cabeça perdida com tanta beleza, se saiu com um "vinte e oito? oh isso não é nada." sem salvação se a almerinda, que conheci num cliente onde estive e que provavelmente já perdeu as esperanças de que a ajudasse, me tivesse ouvido dizer que com aquele palmo de cara dela, a cintura de vespa e as pernitas de alicate, devia andar com um mata moscas electrico na mala. assim quando os gajos se babassem, seria por não sentirem a cara e teria muito mais piada. mas não, não. no fundo não era suposto eu ter-lhes dito isto. no fundo não me apetecia. porque eu sei que te prefiro a ti para me ouvir nestas incursões á "gramática de andaime". para te rires das minhas parvoíces. se calhar não estou assim tão melhor. se calhar é do sono ou desse sonho que não largo, de um dia acordar, olhar para o lado e estares lá tu a dormir. mais ninguém. um dia talvez olhe para o que hoje escrevo tal e qual como olhei para os livros de poesia. com a mesma tristeza e distancia racional. talvez me ache um parvo por ter escrito tudo isto, e talvez nessa altura esteja realmente melhor.mas já está a demorar demasiado tempo, apesar de eu saber que cada pessoa tem o seu próprio ritmo. sempre tive mais paciência com os outros do que comigo. e não me parece que tenha muita. talvez isto seja só um dejecto meu. da minha incerteza perante tanto preconceito. não consigo definir se o tal dejecto é emocional ou racional. mas sei que como de costume gostava que me desmontasses os ditos. me provasses que os preconceitos estão errados. para eu me agarrar a essas novas certezas e poder assim ganhar alguma esperança no sentido desta existência. como é que um dia tu alguma vez pensaste que eu me poderia exprimir oralmente se neste preciso momento, eu a escrever e tu a ler, já te deves ter perdido do assunto inicial. a minha cabeça á roda já nem sabe se é do sono ou da velocidade das ideias. e a esta hora já não vou à cama que não tarda tenho de apanhar o primeiro expresso para casa e ainda tenho de ir preparar a mochila.
ele, o que interessa, por aqui continua cansado de não ser dançado, a precisar que as tuas mãos o segurem, que os teus lábios o beijem, que o teu corpo o embale, para poder dormir sossegado. apesar de não saber dançar, precisa da tua companhia...

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