O dia de amanhã parece a mais reles desculpa para a noite de hoje.
O frio pesado da escuridão.
Grande parte da vida dormi sozinho, sem sentir nisso qualquer incómodo.
Gostava de entender o porquê de, a partir de certa altura, isso se ter tornado tão doloroso.
De onde me vêm esta necessidade de aquecer alguém nos meus braços?
De a confortar com o meu carinho?
De me aquecer e confortar no dela?
De sentir os seus cabelos no meu rosto.
A suavidade do seu.
Por vezes, esta necessidade esbate-se, tão misteriosa e rapidamente como apareceu.
Mas sem desaparecer completamente.
A sua única característica permanente, á tanto tempo que já nem sei quando é que começou a ser assim, é a vontade que tenho de que sejas tu a outra pessoa.
E nestes momentos gélidos, a cama tem-me, obviamente, evidenciado o desassossego de estar sozinho entre os cobertores.
Nem te vejo ao meu lado, nem me chega o verão com a esperança de que o incómodo se torne menor.
Bem lá no fundo não confio na razão de tal esperança.
Desfaço o sono com o frio e só me posso virar quando te queria abraçar.
Depois, e porque qualquer razão já me adormeceu à muito, imagino-nos aos dois numa praia deserta.
De noite, sempre de noite.
Por entre a areia voadora da maresia, os agasalhos contra a humidade e o frio.
Juntos, encostados a ver a lua reflectida no mar.
Usamos o que resta do teu cigarro para aquecer as mãos.
A tua cabeça no meu ombro.
Sinto-me feliz.
Viro-me na cama mais uma vez, e desta, na esperança que deixe de sonhar acordado, fazendo-o a dormir.
Mas nada me sossega.
Só consigo pensar que nunca estamos preparados.
Que dói sempre, por mais que já o saiba, quando me dizes que não pode ser.
Que todos os dias morro mais um bocadinho, de medo de ter uma qualquer atitude que te pareça uma insistência e te afaste.
Que me vai doer e queimar mais que o teu cigarro quando um dia te apaixonares por alguém.
Que já me dói quando dizes que é possível controlar o que sentimos.
Quando o que eu quero, do que é possível, é que compreendas e aceites que eu, eu não funciono assim.
Que se fosse possível controlar o que sentimos, era só uma questão de perdermos tempo a "sintonizar" os sentimentos.
E ás voltas na cama, por mais que as dê, não consigo aceitar isso.
Tento concordar mas não me é possível.
Ou é, tanto como nós acabarmos nos braços um do outro naquela praia.
Achar-me-ia hipócrita se os controlasse.
Para mim, a teoria do controlo é típica de quem sofreu e fugiu a meio sem aprender nada.
Porque é sempre mais fácil.
Até eu fujo quando não me interessa.
Ás vezes é tão difícil não fugir.
Da próxima vez que te voltar a acontecer, que alguém te levantar os pés do chão, nem sequer vais estar preparada porque já achas que estás a controlar a situação.
Mas quem sou eu para invalidar os mecanismos de sobrevivência de cada um.
Os meus mecanismos, que me fazem sofrer que nem um cão, a única coisa que me ensinam é a resistir ao dito sofrimento.
A saber esperar activamente que passe.
A arranjar maneiras de libertar a mágoa e o desespero que por vezes me tornam os dias mais negros que a própria noite.
A génese é somente uma questão de infortúnio.
Mas da próxima vez, já sei que não vou controlar a situação.
Porque nunca estamos preparados.
Vou tentar, pensar, idealizar, planear, imaginar, mas a correr mal, mais nada me adianta do que aguentar e esperar pelas forças que me permitam seguir em frente.
Leve o tempo que levar até as sentir.
Sobrevivendo cada vez mais forte.
E sempre a ser genuíno no que sinto.
Porque nada somos senão o que sentimos, e eu, hei de me sentir sempre livre e sincero em relação a ti.
Já bastam os grilhões que a sociedade nos impõe, não preciso de me acorrentar à imagem que terceiros possam ter idealizado da minha existência.
Não se controlam.
Sentem-se com mais ou menos intensidade.
E o tempo que duram depende sempre de quem os está a viver.
Mas sinto-me no limite e não é da cama.
Dou por mim a pensar se a ser de uma maneira ou de outra, não tendo esperança na minha própria felicidade, porque raio me agarro eu á minha existência?
De onde me vêm este misto de teimosia e masoquismo?
Porquê?
Com que propósito?
Não é do que sinto por ti nem pelo que sinto.
Já cá estava muito antes.
Sinto-me sim, a viver numa realidade paralela e nem por isso melhor.
Mas resisto nas horas negras ao veneno que me corrói a carne e a razão.
Sei que não te quero perder.
Que quero salvar o que sobra.
Mas duvido da minha resistência à dor.
Por mais familiar que a situação me seja.
Por mais distante que te tornes.
Por mais diferente que a vida te tenha moldado.
Quem é que me ajuda a mim em caso de fraqueza?
Só espero que o avião me caia na viagem e que ninguém me acorde.
Mas para já queria mesmo era adormecer e talvez sonhar contigo.
Pelo menos nos meus sonhos, onde entras, ainda me sinto feliz.
Neles ainda tenho esperança e consigo mudar o mundo.
Tudo o resto está cada vez mais empestado com uma náusea visceral.
Ou será ao contrário?
Só sinto, já não sei nada...
Sunday, 31 January 2010
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