Tuesday, 5 January 2010

Ano novo.
Só mesmo os dias o são.
A letargia já matou uns quantos.
Não sei se foi o peso do sentimento, se o peso dos cobertores que me mantiveram colado á cama durante estes dias.
Minto.
Existiram clandestinas saídas onde pude verificar que o mundo, a vida, o tempo, nada disso pára.
Sinto-me como se só eu tivesse estagnado no falso conforto deste marasmo.
No tempo, na alma, nas vontades e na falta das mesmas.

Perante o vento e a chuva miúda que me fazem companhia nas raras vezes que cedo aos olhos um pouco de luz, á pele um pouco de ar, vou pisando as pedras da calçada.
Húmidas, frias, polidas das porradas da vida, ou do simples passar dos sapatos.
Apetecia-me ser uma.
Não da calçada.
Mas uma daquelas que às vezes apanhamos do chão, sem saber bem porquê, sem saber bem o que nos agradou, e metemos ao bolso.
Daquelas que levamos atrás por consciente vontade, que deixamos em casa arrumada numa gaveta ou numa prateleira, protegida não sabemos do quê, mas que vemos, levamos, pegamos e com a qual bailamos entre os dedos sempre que nos apetece.
Apetecia-me ser uma dessas pedras.
Tens alguma pedra dessas?
Queres-me a mim?
Mete-me no bolso e leva-me para onde quer que vás.
Dizem que uma pedra não tem sentimentos, é inerte e rija, mas eu havia de rachar um sorriso só pela felicidade de ir contigo.
Para onde quer que fosses.

Talvez um dia te fartasses e me deixasses num sitio qualquer, embrulhada no esquecimento.
Ou me lançasses para o fundo de uma qualquer superfície liquida, de ondulações e reflexos.
Três saltos de despedida tal e qual os beijos nos lábios que eu te queria dar.
Antes de afundar no teu passado, esquecido.

Mas o sorriso ia ficar.
Eu não me esqueço de ti.
Nem que fosse uma pedra...

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