não faz sentido todo este tempo sofrido, toda esta mágoa no viver, e todo este amor que fica por te dizer.
não faz sentido a ressaca da tua presença, a angústia da tua ausência, a tua indiferença quando até o meu respirar tresanda a insistência.
o que fazemos nós os dois disto, desta reles porcaria.
estripamos como um quisto e salvamos a nossa companhia.
é que tudo o resto não faz sentido, e sem ti, parece que para nada presto senão para a comiseração que me tem consumido.
como se nos arrancassem uma parte da vida a sangue frio, e a parte que deixassem ficasse como lembrança da que partiu.
não faz sentido, nada faz sentido, mas sente-se, fundo, empedernido, um filho da puta mal parido.
hei-de o perder, hei-de nos salvar, havemos de lhe sobreviver, e havemos de um dia nos rir do que agora me faz chorar.
devia ter escrito lamentar.
é feia a imagem de um homem fraco, a carpir.
e eu choro por me quereres obrigar a desistir.
por vezes desistir não é mau, é o que é preciso.
só que a força de uma pessoa vê-se no que aguenta quando todos estão á espera que se desfaça em ruínas.
sinto-me um caso estranho.
sempre me lamentei, chorei, mas não me lembro de desistir por mais que o fizesse.
mas a que preço?
vejo o corpo a avançar no tempo, a envelhecer em frente, mas o coração, esse, estancou lá atrás no sentimento.
está doente.
no fundo, isto é uma ilusão.
no fundo, isto é o fim.
ou a mais convicta tentativa de acabar com esta merda.
sim, porque neste momento, isto que sinto, é uma merda.
ainda me lembro quando á mais de quatro anos comecei a recalcar o que sentia por ti.
de olhar para ti a por o baton do cieiro no pavilhão chinês e pensar "fodasse, o teu namorado sabe bem a sorte que tem. que querida e linda que tu és..."
e tu toda entusiasmada a falares-me do "Walk the Line", com a história do Johnny Cash e da June Carter.
mas o tempo não é nada.
gostar de ti é-me tão natural como respirar.
mas por não ser como tu, que tens uma capacidade de "seguir em frente", como lhe chamas, que eu não tenho, sou obcecado?
por ter certeza absoluta no que sinto?
quebraste a minha confiança para confirmares o que ainda sinto por ti.
o que tudo faço para to esconder.
porque sei que não o queres.
inclusive afasto-me quando acho que não vou aguentar.
que só nos vai magoar.
tens tão mais experiência que eu nisto das relações e parece que não aprendeste nada.
e eu não sou hipócrita.
sou intransigente.
comigo.
e com todos os outros.
não são mais do que eu.
não me perdoo.
não me esqueço dos meus erros.
e aos outros, não perdoo nem esqueço.
faço tudo para evitar ter algo para te perdoar.
já basta não me perdoar a mim pelo mal que as minhas escolhas nos fizeram.
merda.
não és tu que me magoas.
é esta situação que não merecemos.
e no fundo é este medo que eu tenho que mina tudo entre nós.
este maldito medo que eu tenho de viver.
pior, do que deixo por viver.
uns tem medo da morte.
eu, eu tenho medo de não viver.
não sou mais corajoso por isso.
tenho medo de deixar passar o momento certo para te dizer que te amo que és tu aquela pessoa cuja a companhia eu quero ter enquanto vou envelhecendo.
de me faltar a coragem para to dizer.
mas coragem para quê se não o queres?
de viver o resto dos meus dias amargurado com o falhado que fui, especialmente para ti.
para o farol de luz desta existência sombria.
de perder essa oportunidade.
entre outras.
imaginas o que é carregar um peso destes?
ter a perfeita percepção do que se sente, por quem se sente, e ao mesmo tempo a consciência de que se falhou o momento?
e que a oportunidade nunca mais vai voltar.
por mais persistente que seja o coração e o sonho que ele protege, até da realidade.
eu cometi esse erro.
ainda hoje não me perdoo.
ainda hoje sonho com o milagre de uma oportunidade e vivo com o medo, ah o maldito medo, de a falhar.
o medo de imaginar a oportunidade e de te perder de vez.
não posso fazer nada senão ir sentindo até lhe ficar imune.
o tempo ensina mas não cura.
e eu, eu estou cada vez mais apaixonado por ti.
eu ainda me afasto de ti, depois de nos despedirmos, triste como um cão espancado por ver os meus sonhos de um beijo teu a ruírem a cada passo que dou.
estou a encarnar o meu pesadelo.
espero por algo que já sei que nunca vai chegar, mas o sonho, esse, aparece-me todas as noites.
e só a hipótese de vir a acontecer segundos antes de eu deixar este mundo, é suficiente para me alimentar a chama.
o filho da puta do coração agarra-se a tudo.
quando é que ganho por mim, o sossego de quem fez tudo o que podia?
não tentar sempre me tirou o sono.
é muito mais devastador do que tentar e falhar.
quando é que deixo de ver ou imaginar oportunidades para tentar?
cada uma que brota, seja neste coração demente, seja perante os meus olhos incrédulos, minimizam tudo o que já fiz e falhou.
não pode ser, não pode.
entretanto vou continuando a lamentar a sorte do que sinto, sempre a seguir em frente.
sempre contigo, o meu sonho, neste estúpido coração.
realmente, o tempo ensina mas não cura...
Friday, 20 August 2010
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Tenho a mesma capacidade (de seguir em frente) mas deixo-me prender ao passado. porque quero, porque gosto de ir relembrar.
ReplyDeletedói, se dói sentir o que sentes.