Saturday, 10 October 2009

Vejo caídos, estes braços inúteis, que não te podem abraçar.

Na quinta-feira o peso era tanto que cheguei a ir outra vez a Santa Apolónia.
Beber o "nosso" capuccino.
Não o posso repetir.
É estranho sair de lá sem ti.
É perturbador estar sempre à espera que saias da esquina mais próxima ou do comboio que acabou de chegar.
Saio eu sempre de lá com ombros de outono e olhos de inverno.

Ás vezes chego a pensar que a diferença entre uma amizade e algo mais forte, chamemos-lhe assim, é directamente proporcional à mágoa da ferida que pode abrir.
A minha ferida não estanca.
Ou ainda não estancou.
Espero que daquela que te abri já só reste a cicatriz.
Não nos vale de nada que andemos os dois a sangrar, se tudo o que nos fazemos é afastar.
E assim sendo, em nada me deixas ajudar, escurecendo-me mais a alma e o sangue.

Ah, o sangue.
Agora quando me corto, já nem vivo me sinto.
Só sei que acontece pelo cheiro.
Por o ver a deslizar pela pele.
Não há dor quando a lamina a separa.
Só sangue a deslizar.
Tal como eu deslizei para o teu esquecimento.
Como eu vou deslizando todos os dias para a minha campa.
Isto se não me queimarem o corpo até ao ultimo bocado de carne e sangue, reduzindo-me a existência e tudo o que a marcou, todas as feridas, todas as cicatrizes, a pó, cinza.
Até o sangue.
Que só quando escorre é que me apercebo que ainda não me secou completamente.
E tudo em mim vacila.
A miserável falta que te sinto só me aumenta ainda mais o desassossego.

Acordar todos os dias tornou-se um desfalecimento, mas ao contrário.
Do sossego para a agitação, mantendo-se só, só a falta de sentido.
Do alto deste meu tibete pessoal, vou observando as folhas a cair.
Tentando à força aprender a distância.
Pela beira deste longo caminho que ainda me falta, rosas enlutadas para ti, meu anjo negro.
Assenta-te bem, origem da minha escuridão.
Sombra das tuas deslumbrantes asas.
Sigo embrulhado pela alienação, senhor do que assim aprendi.
Que a ignorância da tua existência foi a benção que perdi.

Com ela a razão e o sossego, porque à luz da tua ausência tudo me parece reles e ordinário.
Para se voltar a nascer, primeiro temos que morrer.
Tal e qual como só ama quem sabe o que é odiar, ou como só apreciam verdadeiramente a luz os filhos da escuridão.
Eu só estou a ficar mais velho e ainda não me vejo a ficar corcunda.
Ainda consigo andar direito.
Mas é por ser como sou, por ser essa a tão crua razão.
Ainda és tu quem me pesa no coração...

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